sexta-feira, 18 de julho de 2008

ACIDENTAL


Dentro de casa uma lagartixa de rua.
Não daquelas que sobem pelas paredes,
quase transparentes, faxineiras e ajudantes.
Não daquelas que se equilibram no teto
e passam longe do tato.
Esta - ligeira, faceira, arteira. De rua.
Altiva, atrevida, impossível de encarar.
Entra e sai debaixo da cama, vãos de sofás, frestas abertas, esconderijos encobertos, aqui e lá.
Corro atrás dela, não tenho medo. Asco não tenho.
Quero capturá-la com minhas próprias mãos.
Sentir na pele o regozijo de um predador.
Mas não sou tão ágil, nem tão pequena.
Minha natureza não me designa tamanha estripulia.
Ela foge de mim. Parece sorrir em seus olhos semicerrados.
De relance, vejo sua cauda – cortada.
Aliás, acho que não tem cauda.
Como será sua vida lá fora?
Foge de gato, toma sol no asfalto, alvo de brincadeiras infantis.
A cauda? Certamente perdida para algum estilingue ou pedra, maldade ou acidente.
Lembro-me de uma batida de carro, quase levou-me a vida e os movimentos há dez anos atrás. Fico com dó.
Dela e de mim.
Depois me recomponho.
Ela se recompõe melhor do que eu.
Sua cauda se regenera rapidamente - daqui a pouco cresce de novo, e garanto que já nem se lembra o que lhe aconteceu.
Já eu estou aqui, ainda traumatizada por um acidente que me levou algumas coisas.
A visitante oportuna corre para outro lado da casa.
Eu não corro mais atrás dela.
Agradeço-lhe a descoberta acidental.
Meu corpo pode até não se regenerar.
Minha alma é como cauda de lagartixa.


... (...) ... (...) ... (...)

Outro dia João Gabriel levou uma lagartixa para dentro de casa. Trouxe da rua. Ela ficou lá três dias, não conseguíamos pegá-la para colocar pra fora... Dessa luta surgiu essa poesia.

7 comentários:

Bel disse...

Que lindo! Que linda!
Tu e tua escrita. Tu e tua lagartixa. Tu e tua realidade acidental. Tu e teus entendimentos acerca das coisas pequenas e das grandes também. Tu e tua delicada reflexão. Inspiração.
torço pra que o vento te leve junto com que já se foi. Sopro pra perto de ti meus sinceros desejos de alívio. De tudo que se foi. e o que ficou te fez assim: sensível a ti.
Um beijo...vou incluir teu blog nos meus prediletos. Adorei tua presença poética em minha janela visível.
Bel.

Robério Carneiro disse...

É amiga, tem muitas lutas, muitas lagartixas, muitos rabos que nos fazem aprender o quando somos frágeis, o quanto nosso tempo é pouco, quanto ainda temos por ver...
Saber que existem pessoas que veem as lagartixas, me conforta a alma!

Muita luz em sua trilha...

grazielagp disse...

Que delicadeza!! Soft, vc tem o dom de observar as pequenas coisas e fazer com q virem grandes!! Que saudade de vc e da sua doçura!
Grazi

Bel disse...

Vim te responder por aqui...porque o mundo é mesmo uma bolinha...de gude, bem colorida e cheia de tranparências mesmo. Sofia...eu sou de Santa catarina...vivi a maior parte do tempo na capital..em Florianópolis. Mas morei em Lages...estudei no Santa Rosa de Lima...teu amor deve conhecer. Vi neve em Curitibanos, uma cidade próxima ... em que morei logo depois de Lages, pode?
Pode....na vida tudo pode até estes sincrônicos encontros.
Atualmente...moro em Curitiba. Adoro a cidade e o frio daqui. Adoro os dias cinzentos e com cheiro de chuva. E, estou adorando nossas trocas poéticas.

Um grande beijo. Bel.

Denis disse...

Boa noite, Sofia!

Li a poesia: Acidental. Para mim, ela possui características modernistas. A propósito, você gosta de Modernismo? Essa foi a primeira poesia sua que li; quero ler todas; gosto muito de poesia!
Um abraço!

Paulo D'Auria disse...

Olá,Sofia! Sou Paulo D'Auria, do Projeto Macabéa - SP. Vim até aqui apenas para lhe dar as boas vindas! E acabaei me deparando com sua excelente poesia! Parabéns!

PS: A turma de BH é 10! Ana, Alê, João, Cackau...

Beijos!

Anônimo disse...

OI SOFIA! a lagartixa da sua poesia grudou na parede do gosto da minha atenção! Sou um novo amigo da Grazy. Ela me disse que tu faz roteiro! MEU CONTATO É fabiofeter@gmail.com
parabens pela poesia e por vc ser a força da vida!
Um bjo carinhoso
Fabio Féter